Interpretações da Cultura

19/12/2008

Dinheiro X Capital

O CAPITAL É UM FATO SOCIAL!

Os tempos de crise econômica mundial convidam para um momento de reflexão sobre o Capital. Agora que o pior já passou e muitos, como eu, ficaram atônitos diante da abrangência e da volatilidade da "economia" globalizada, podemos, pelo menos, reconhecer de forma mais fácil a máxima tão batida sobre o "poder do capital". Não vou aqui reviver o discurso socialista, mas aproveitar o ensejo para discutir o óbvio sobre a sociedade em que vivemos e, ainda, discutir um problema clássico do campo da psicologia.

Então, em primeiro lugar, precisamos entender que dinheiro é uma coisa e capital é outra completamente diferente. Eu arriscaria, de uma forma um pouco precipitada, a dizer que o dinheiro é um fato da vida e o capital é um fato social. Dinheiro é aquilo com que nós lidamos no dia-a-dia. O que recebemos supostamente em função de um trabalho especializado dentro da sociedade e que é um valor de troca para adquirirmos os bens e serviços produzidos por outros nessa mesma sociedade. Ele se concretiza na forma de uma certa moeda, que nada mais é do que um símbolo desse "valor" que supomos estar pareado em algo de concreto: o tempo de trabalho agregado, o lastro do padrão-ouro, etc. Sua lógica é a de um escambo intermediado: meu trabalho se transforma em valor monetário e é utilizado para comprar um outro trabalho transformado em produto ou serviço. Então eu trabalho, ganho dinheiro e gasto esse dinheiro para viver. Dentro dessa lógica vive a maior parte das pessoas honestas, que fica sonhando com um trabalho que seja melhor remunerado e supostamente mais valorizado socialmente para poder ter uma melhor "qualidade de vida".

Ora, dentro dessa lógica, nada do que se vê sobre a economia mundial faz sentido. Isso porque o que está em jogo não é o dinheiro, mas o capital. Diferentemente do dinheiro, o capital não é um instrumento de intermediação da troca. Ele tem a surpreendente propriedade de se multiplicar sozinho. Ele se multiplica por meio de um recurso chamado juros, que, supostamente, é o valor que se agrega ao dinheiro no tempo. Ou seja, o juro é uma atribuição de valor ao dinheiro ao longo do tempo. Ora, isso por si só, já é uma subversão de todas as regras "clássicas" sobre o dinheiro! Não é à toa que era condenado pela igreja católica até o começo da modernidade sob o nome de usura (utilizar do dinheiro para fazer dinheiro) e ficou marcada no senso comum até hoje sob figura do agiota.

Pois bem, o capitalismo chamado financeiro se fundamentará em cima da oficialização dessa simples regra "demoníaca". Sim, demoníaca no sentido mais original da palavra, pois é responsável por dar uma vida própria para o valor de troca/dinheiro, descolando-o de sua referência "concreta". Isso explica também porque os judeus saíram na frente nessa primeira onda da constituição das instituições financeiras e ajuda a compreender um motivo pelo qual se tornaram essa figura execrada na Europa capitalista do século XIX... mas isso é outra história!

Podemos assim entender esse fato básico e fundamental a respeito do capital: ele se multiplica sozinho ao longo do tempo e quanto mais ele agrega valor, maior é seu crescimento, ou seja, é uma verdadeira progressão geométrica. Daí a grande injustiça que os pobres mortais assalariados sentem na pele que é o fato de que só faz dinheiro quem já tem dinheiro. Podemos corrigir essa afirmação dizendo que só o capital pode produzir mais capital e que o mundo do capital não é o mundo do dinheiro.

Poderia continuar esse ensaio contando um pouco mais a história do capitalismo até chegarmos a essa forma final da sociedade de consumo em que a lógica do capital é controlada pelo livre mercado de ações. Não teria, no entanto, competência para isso e também não é meu propósito. Basta dizer que nesse atual estágio de desenvolvimento do capitalismo o capital é ainda mais regido por suas leis próprias e que se encontra descolado das leis ordinárias do mundo do dinheiro... Acho que as barbaridades que apareceram na crise, como países pobres que se tornaram de um dia para outro grandes "investidores" e de "investidores" que emprestavam muito mais do que o capital que dispunham, são suficientes para ilustrar o argumento.

O que quero marcar é que o capital é, claramente, um fato social. Fato social é um conceito dos primórdios da sociologia que circunscreve objetos específicos dessa ciência. Os fatos sociais são aqueles fatos produzidos na interação social entre os indivíduos e que passam a ter uma natureza própria, independente de sua referência material ou psicológica, sendo percebido pelos indivíduos como exterior e exercendo uma coerção sobre seu comportamento ou vontade. Assim, as leis da sociedade são fatos com uma natureza própria e uma lógica própria de funcionamento, que, embora emerjam de um contexto de interações individuais, não se resumem a ele. A moral é o exemplo mais claro, mas as leis políticas e econômicas também, dentre elas o capital. O capital tem uma dinâmica própria que age como um poder sobre as vidas individuais e não é explicado por elas, possibilitando inclusive o desenvolvimento de modelos econômicos de caráter científico para a compreensão da dinâmica da sociedade em seus diversos níveis.

Pois bem, e aí entra meu segundo objetivo nesse ensaio: ninguém duvida que a economia é uma ciência, apesar de não entender muito bem a natureza "própria" do capital. Mas, bem ou mal, se aceita que a economia tenha um estatuto epistemológico próprio, provavelmente por ela ter relações concretas com a produção de bens e serviços - o trabalho - e com a troca desses produtos por meio do dinheiro. Agora, por que constantemente a psicologia se vê conforntada com o questionamento do seu estatuto epistemológico? Ou seja, porque hoje em dia poucas pessoas acreditam que a psicologia seja uma ciência própria? Sim, porque no auge do modelo biotecnológico o estatuto do nível psicológico da subjetividade é cada vez mais relegado a um epifenômeno das regulações fisiológicas do corpo biológico.

Continuo essa discussão na próxima postagem...


Escrito por Dr. Silvério às 15h41
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10/12/2008

 
 

Quiz Musical

http://vh1brasil.uol.com.br/jogos/

Classificação:

Os testes de internet são uma verdadeira praga, mas tem uns que valem à pena, principalmente para quem gosta do assunto e é um pouco obsessivo. O site da VH-1 Brasil tem uns testes muito bem feitos sobre música pop, com nomes de bandas, músicas, álbuns e curiosidades. É impossível resistir! Vale à pena conferir...


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Escrito por Dr. Silvério às 21h40
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Eu sou a lenda x Ensaio sobre a Cegueira

ENSAIOS SOBRE O "FIM" MODERNO

 

Nossa sociedade contemporânea é realmente absurda... Levando em consideração que a humanidade sempre fora marcada por uma angústia de fim-de-século e renovava suas esperanças de um mundo melhor a cada entrada de era, é realmente surpreendente vermos que este século começa marcado pelo terror e pela catástrofe. Do 11 de setembro ao aquecimento global, tudo indica que a esperança de um novo mundo foi solapada pela história. Fim da história ou fim da modernidade, tanto faz, o que importa é que o futuro chegou e sem ele só nos resta o fim dos tempos.

O fato é que o clima apocalypse now impera na nossa sociedade do espetáculo. Em um dos seus palcos mais privilegiados e consagrados, o cinema, podemos observar suas articulações semióticas mais poderosas e sedutoras. Poderia elencar uma série de filmes recentes do gênero "cinema catástrofe" - invasões extraterrestres, revoluções climáticas, epidemias biológicas... - mas escolhi comentar apenas dois deles, pela proximidade no tempo e no tema e pela total disparidade no tratamento e na perspectiva. São Eu sou a Lenda, blockbuster americano com Will Smith como protagonista, e Ensaio sobre a cegueira, adaptação multinacional do romance homônimo do português José Saramago e dirigido pelo cineasta brasileiro Fernando Meirelles.

O filme americano tem um visual extremamente bem trabalhado e uma história de herói totalmente americana: o homem que faz a diferença contra tudo e contra todos; o pai de família exemplar, cidadão modelo, técnico super-especializado e pronto para fazer a diferença. Sim, porque todo filme americano que se preze tem um mocinho que é "the best". A cena inicial do filme, por exemplo, é paradigmática: o sujeito aparece caçando viadinhos acompanhado de seu fiel e único companheiro, uma cadela, a bordo de um super carro esportivo em uma Nova York destroçada e abandonada.

Depois da cena de cowboy vamos compreendendo que a cidade foi evacuada por conta da epidemia de um vírus que mata 90% das pessoas e transforma o restante em zumbis! Pois é, no fundo trata-se de um filme trash de zumbis bem maquiado. E isso faz toda a diferença, pois permite a clássica dissociação entre o bem idealizado e o mal projetado no outro, que por sua vez, dá o clima paranóico tão característico do nosso fim dos tempos. Então, no fundo, é um filme acerca da sobrevivência, que parece ser a única forma de atualização do desejo em nossa sociedade do espetáculo. O resultado é a fabricação do mito do herói americano: aquele que doou sua vida e abriu mão de sua família para achar a cura para a epidemia e permitir um novo começo da civilização americana.

Os efeitos visuais e o thriller capturam a atenção, de modo que você mal percebe o quanto toda a história é inverossímil. Não me refiro nem aos absurdos da "caçada" (de viadinho, gente ou zumbi) ou da própria bestialidade que toma conta dos "humanos", mas ao fato do mundo se restringir aos EUA e a América à Nova York. Tem coisa mais absurda do que o surgimento de uma mulher e uma criança que desembarcam sozinhos de um navio contaminado que vem de São Paulo e que, curiosamente, falam perfeitamente inglês? E o exílio do que sobrou da "América": uma perfeita vila de colonos pioneiros protegidos pelo exército!

Quantos valores e representações ideológicas são transmitidos nessa configuração de coisas: um verdadeiro retrato do mundo intolerante, individualista e paranóico desse século XXI. O próprio título já fala desse lugar de narcisismo desamparado: "eu sou a lenda"!

Vejamos, então, a história de Saramago... Embora factível, pois o enredo fala de uma misteriosa epidemia de cegueira branca que toma conta de uma cidade e que depois acaba por regridir espontaneamente, a história é, antes de tudo, uma alegoria. Na verdade, é um ensaio sobre a condição humana, daí se passar em uma grande cidade qualquer de nossos tempos modernos, com pessoas comuns (notem que ninguém tem nome nessa história...). Ou seja, poderia ser qualquer lugar ou nenhum, pois é a própria "condição humana" que é posta em questão pelo autor. Assim, não se trata de um filme de aventura ou suspense, mas de um drama sobre como diante da suspensão do controle do olhar do outro o homem se revela em seus mais repugnantes desejos. O microcosmo desse drama é o sanatório para onde são mandados, em "quarentena", os infectados. Naquele ambiente restrito vemos emergir todas as formas de exploração do homem pelo homem e a luta crua, tosca e ridícula pela sobrevivência. Vemos o caos e o pânico se instalarem e modificarem todo o tecido social. Vemos a traição, o arrependimento e o perdão. Vemos o encontro fortuito dos improváveis tornar-se uma cumplicidade coesa; quase um lar. Vemos tudo isso pelos olhos de uma mulher. A mulher do médico, que se faz de cega para acompanhar o marido, a qual tudo suporta, que tudo sustenta, sem poder desabar.

Vemos aqui um outro tipo de heroísmo, um heroísmo tipicamente feminino: a força que vem da adversidade, do sofrimento e da compaixão. As mulheres são as protagonistas desse filme: grandes em sua coragem e dor. Produz-se aí também um mito, mas um mito, diríamos, tipicamente latino: uma maria ou uma amélia. Não é à toa que foi escrito por um português e dirigido por um brasileiro...

Quantos outros contrastes vemos ao compararmos as histórias. O que me chama mais a atenção é que aqui o bem e o mal se digladiam dentro do âmbito humano e esse âmbito é o de uma coletividade, dando toda a riqueza de matizes de uma narrativa verdadeiramente mítica e trágica.

O que eu acho mais interessante é que o filme de Meirelles foi muito criticado no exterior e, principalmente, pelo público americano. Foi, inclusive, comparado ao de Will Smith. Um dos comentários mais comuns foi que o filme não parecia "real". Perguntavam porque a ONU não foi chamada ou porque deixaram aquelas pessoas trancadas ali, ou porque a epidemia simplesmente passava de uma hora para outra. Não entenderam somente o caráter alegórico do filme, penso eu, mas também ficaram muito assustados em ver a desumanidade - a ponto de acharem que ela era "falsa" ou "inverossímil"!

Ora, mas qual dessas duas histórias é mais difícil de crer? A da crueldade dos homens ou a dos homens zumbis? Realmente me espanta que um simulacro tão mal arrematado seja mais factível do que uma reflexão sobre aquilo que não podemos ver de nós mesmos.


Escrito por Dr. Silvério às 21h33
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20/10/2008

Aventuras da Modernidade

TUDO QUE É SÓLIDO DESMANCHA NO AR

Ensaio de fôlego sobre a modernidade, o livro de Marshall Berman é surpreendente. Tomando como mote o clássico aforisma de Marx sobre o capitalismo, o autor faz um percurso interessante sobre a constituição da subjetividade moderna. Seu livro é composto de uma série de ensaios sobre a obra de figuras emblemáticas da modernidade européia: Goethe, Marx, Baudelaire e os escritores russos. Chama a atenção sua utilização dos textos desses grandes autores em associação com uma crítica do espaço urbano, por meio da arquitetura. Assim, seu grande mérito é nos lembrar que a discussão sobre a modernidade extravasa as fronteiras do "mundo interno", mostrando como a subjetividade humana é moldada na relação com o espaço público e com a coletividade. O apoio que encontra nas cidades de São Petersburgo, Paris e Nova York para discutir o impulso moderno é realmente impressionante. Para nós, estudiosos do mundo "psi", é um alento! Outa coisa que chama a atenção é o resgate que o autor faz da empreitada moderna, mostrando como em seu próprio germe está o ímpeto desagregador que, no limite, lança o homem em uma individualidade estéril e desamparada. É, nesse sentido, uma lição para os aduladores da tão clamada "pós-modernidade", que se seduzem muito facilmente por um pensamento dicotômico e simplificador da complexidade em jogo na subjetividade moderna.

Há, contudo, algumas críticas pertinentes. A primeira não é tão grave, pois faz parte da perspectiva humanista defendida pelo autor que, apesar de fã de Marx, é um norte-americano... Sua definição de modernidade é um tanto, digamos, extensa demais, pois acaba se definindo como todo impulso humano para o crescimento e autonomia. Ou seja, é um arauto da felicidade moderna, sem, contudo, tentar da conta do que estrutura esse impulso autônomo e libertário tão característico da modernidade. Além disso, carece de perspectivismo histórico, pois um leitor desavisado pode facilmente pensar que isso diz respeito ao homem em si, independente do contexto sócio-histórico em que se produz. Nesse sentido, chama a atenção ao completo desprezo que ele faz a Foucault e demais pós-estruturalistas franceses, reduzindo-os à condição de "pessimistas" em relação à natureza humana e à aventura moderna. Sim, pois, segundo ele, esses autores pecam por afirmarem o grau de controle e alienação que as sociedades pós-industriais infligem ao homem. Hora, polarizar a questão em termos de "otimistas" americanos e "pessimistas" franceses é realmente reduzir toda a questão a um preconceito moral... Mas enfim, com o devido cuidado, o livro vale muito à pena como leitura, pois a prosa do autor é realmente primorosa. 

Agora, o que é imperdoável é o último capítulo do livro, que trata explicitamente da "modernidade" americana, por meio do espaço urbano de Nova York. Não vou estragar a leitura de quem quiser ler, mas adianto que é uma perspectiva completamente anti-moderna, saudosista, retrógrada e provinciana, totalmente o oposto de tudo o que o livro discute e sustenta... Bem, mas o que seria da modernidade sem seus paradoxos, não? Confiram! 


Escrito por Dr. Silvério às 16h04
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Companhia de Bolso

DÁ-LHE BOLSO!

A Editora Companhia das Letras tem nos presenteado com ótimos lançamentos de seu selo Companhia de Bolso. Projeto iniciado em 2005, a idéia era promover o mercado de livros de bolso no Brasil, com um formato especial e preço reduzido. Esse segmento sempre foi considerado meio "B", principalmente pela contribuição de algumas editoras, como a Martin Claret, que fazem questão de aliar baixo preço com mau gosto e péssimas traduções. Mas a Companhia das Letras inovou com um projeto gráfico inovador e elegante. O único problema é que o preço e o tamanho do livro acaba ficando no meio termo entre a edição de bolso e uma edição standard. Eu, por exemplo, não consigo imaginar que bolso poderia conter esses volumes, até porque há alguns muito extensos.

Mas não é só pelo design que a coleção chama a atenção, mas, principalmente, pela seleção. Tem um pouco de tudo, dos policiais, ensaios e poesias até alguns trabalhos de mais fôlego, principalmente na área de ciências humanas e filosofia. Está lá o volume de Ética das famosas coletâneas "Os sentidos da paixão", a biografia de Lacan por Elisabeth Roudinesco e alguns livros do Nietzsche em cuidadosa tradução de Paulo César de Souza (o mesmo do ótimo "As palavras de Freud"). Ou seja, é leitura de qualidade a preço acessível, além da possibilidade de resgatar alguns livros fora de catálogo. É o caso de "Rumo a Estação Finlândia" e "Tudo que é sólido desmancha no Ar", ótimos ensaios sobre a empreitada moderna e a cultura contemporânea. Vale à pena! Ah, um dos últimos lançamentos é um livro de ensaios de Hannah Arendt: "homens em tempos sombrios".

Na seqüência dos posts vou trazer algumas "resenhas" de livros dessa coleção.


Escrito por Dr. Silvério às 15h57
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O retorno

A VOLTA DOS QUE NÃO FORAM

Caros leitores, depois de um sono dogmático de quase um ano, Dr. Silvério está de volta à ativa. Ninguém sabe ao certo o que aconteceu com ele, parece que tirou uma temporada para uma viagem existencial, enquanto seu alter ego andava atarefado com seus afazeres acadêmicos... Mas o mundo não pára! E a demanda por interpretações da cultura continua...


Escrito por Dr. Silvério às 15h31
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22/12/2007

Fim de Ano

FREUD NOEL

Caros leitores, gostaríamos de agradecer a todos pela companhia no mundo virtual durante este ano.

Um feliz natal e um próspero ano novo para todos vocês! Com carinho, Dr. Silvério.


Escrito por Dr. Silvério às 20h17
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QUEM SOMOS NÓS?!? NOSSA HERANÇA PRIMATA...

Em tempos de tanta baboseira sobre "quem somos nós", eis que aparece um videozinho muito divertido para nos lembrar da nossa ridícula condição humana. É ótimo para aulas de psicologia geral e chama-se dance, monkeys, dance!


Escrito por Dr. Silvério às 19h27
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11/12/2007

Freud é POP

FREUD CAPA DA TIME MAGAZINE

De volta ao nosso tema original: Freud e o mundo POP... Encontrei as imagens das capas da Time Magazine em que Freud aparece. São 4, no total. Os anos são: 1924, 1939, 1956 e 1993, respectivamente.

As imagens podem ser encontradas no site da TIME, na sessão arquivo: http://www.time.com/time/archive/


Escrito por Dr. Silvério às 19h46
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Pérolas III

A CAÇA ÀS BRUXAS NA PSICANÁLISE: A NOERGOLOGIA NOERÓBICA

O mundo PSI é realmente surpreendente! Nas minhas andanças pela internet acabei encontrando um primor de articulações fantásticas e de discursos pretensamente científicos na forma de um "novo paradigma" das ciências psicológicas: A NOERGOLOGIA. Sinceramente, nunca tinha ouvido falar de tal "movimento". Pelo que pude entender dos textos e informações contidas em seu sites "oficiais", trata-se de um novo 'olhar' sobre os fenômenos psíquicos que pretende afirmar o potencial criativo da 'energia' que move o ser humano. Assenta-se sobre uma crítica datada aos paradigmas mecanicistas nas ciências naturais e faz um ataque frontal à teoria psicanalítica. Não encontrei nenhuma referência acadêmica ao tal "movimento", a não ser o fato de que o "Instituto" está alocado em uma incubadora de novas tecnologias de uma Faculdade Espírita de Curitiba (Faculdade Bezerra de Menezes), onde oferecem cursos de pós-graduação e atividades de consultoria. O espectro de aplicações é amplo: desde instituições hospitalareas até o contexto organizacional de recursos humanos.

Não tenho nada contra novos olhares no campo psi, mas me incomoda sobremaneira aqueles que preferem se definir pela negação do outro do que por si próprios e, mais ainda, tenho muito receio daqueles que procuram se mascarar em um véu de "cientificidade". A noergologia, parece-me, assenta-se sobre essas duas quimeras...  De qualquer forma, vale à pena conferir a coletânea de bizarrices. Só é preciso ter um pouco de paciência com o site que é horrivelmente mal desenvolvido.

Para começar, a tal da noergologia, a despeito de suas pretensões mercadológicas e tecnológicas (confira as "marcas registradas" ), tem um base inegavelmente nacionalista e positivista. É isso mesmo! Só mesmo no Brasil que o positivismo teve meandros tão díspares como o patriotismo, o cientificismo, o higienismo, o espiritismo e o nacionalismo integralista! A noergologia parece beber de todas essas fontes... Nesse sentido, é uma verdadeira babel! Só para marcar, no site você encontra o hino e a bandeira do movimento. Ouça-o e você vai se sentir transportado para o início da República, na casa do próprio Bezerra de Menezes (para quem não sabe, um dos grandes nomes do espiritismo no Brasil). Saudades do higienismo? Clique na primorosa secção de vacinas contra fraudes científicas! Lá você irá encontrar uma dezena de textos criticando a psicanálise e Freud. Há textos para mostrar que o inconsciente não foi uma invenção freudiana, para afirmar que a teoria da sexualidade de Freud não passa de uma reedição das idéias dos manuais de feitiçaria da inquisição, etc. Tudo para mostrar que a libido é um engodo que esconde o verdadeiro potencial criativo da 'energia' humana.

Tudo isso encontra-se documentado no livro sobre o "novo paradigma" e a fita de vídeo sobre as relações entre "bruxaria e psicanálise" - esta última editada pela Agrovídeo  (http://www.agrovideo.com.br/produtos.asp?produto=698). Curioso: um vídeo sobre bruxaria e psicanálise no meio de uma série de produtos agropecuários, como "correção de solo", "como plantar" e "adestramento canino" .

É bastante interessante ver toda a energia empregada nessas críticas, que me parecem, desculpem a psicanálise selvagem, uma grande formação reativa com relação à sexualidade. Nesse sentido, a Psicanálise parece simbolizar uma caça às bruxas com relação à sexualidade e à feminilidade. Em suma, sintomas de uma profunda repressão. Um indicativo interessante está nas fotos de mulheres que ilustram o site: todas extremamente sensuais. Uma verdadeira amostra do mecanismo da negação! Enfim, acho que daria para fazer uma ótima interpretação de toda essa construção simbólica, mas acho que iria apenas irritar ainda mais o "inimigo" além do que, particularmente, acho essa estratégia freudiana clássica de muito mal gosto.

De qualquer forma, não precisamos nos esforçar muito, pois a insustentabilidade de toda a empreitada se mostra evidente. Só fiquei curioso para saber o que significa a tal da noergologia e da noeróbica, pois não encontrei, no site todo e mesmo no artigo que saiu em uma revista semanal, uma definição do que viriam a ser esses conceitos. Bem, se alguém descobrir, me avisem... Seguem abaixo alguns link para vocês tirarem suas próprias conclusões:

Páginas Oficiais: http://www.noergologia.com.br http://www.noergologia.com

Artigo na revista Corpore (Imagem abaixo): http://www.revistacorpore.com.br/index.php?YldGMFpYSnBZU3gyYVhOMVlXeHBlbUZ5TEhacFpYY3NORFVzTERJPQ==


Escrito por Dr. Silvério às 15h17
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27/11/2007

Marie Antoinette

EM BUSCA DA ADOLESCÊNCIA ONDE ELA NÃO ESTÁ

Ilusão retrospectiva é o nome que se dá ao erro de raciocínio que tende a atribuir uma propriedade posterior a um argumento que logicamente o precede. Em outras palavras, é utilizar conceitos do presente para compreender o passado. Pode soar estranho, mas o senso comum e a psicologia incorrem nesse tipo de erro freqüentemente.

Um exemplo é a própria idéia do Complexo de Édipo, quando lida literalmente. As pessoas tendem a pensar que a tragédia grega fala de um sujeito que inconscientemente deseja sua mãe e mata seu pai, mas não é isso que acontece. O homem grego não é um sujeito, como nós costumamos entender desde a modernidade. É nesse sentido que a grande encenação do drama freudiano é Hamlet, de Shakespeare; este sim, um sujeito atormentado pelas suas fantasias de desejo e marcado por seus sintomas "neuróticos". Outro exemplo são as idéias de infância e adolescência. A infância é uma construção moderna e a adolescência, um conceito que foi cunhado no começo do século XX. Basicamente, a adolescência diz respeito ao que se costumou chamar de "moratória social". O adolescente é alguém que já tem todas as possibilidades de viver uma vida adulta, pois já tem condições biológicas e educacionais para tanto, mas que fica sob a tutela dos pais e do estado, que lhe colocam em uma espécie de limbo no qual podem gozar de uma virtual e licenciosa autonomia. Calligaris, em uma análise interessantíssima desse fenômeno social, afirma que a adolescência é a reserva narcísica do imperativo de gozo do homem moderno, marcada por um paradoxal conflito entre o fascínio (liberdade e juventude) e a repulsa (aborrescência). Ou seja, a adolescência é um retorno do recalcado da epopéia moderna.

Pois bem, o filme Maria Antonieta, da ainda estreante Sofia Coppola, ilustra muito bem esse estado de coisas e tem na exploração estética desse paradoxo seu aspecto mais cativante. Quem senta para assistir o filme imediata e inevitavelmente é tomado por uma sensação de estranheza: "Ué, não era um filme de época? Que música é essa?!? Será que eu coloquei o disco errado?". A sensação muda de figura, mas não desaparece, quando a trilha sonora passa a acompanhar a primeira tomada, de uma carruagem percorrendo um típico bosque europeu. Passamos então a acompanhar o destino de uma jovem princesa austríaca, que é enviada para a corte francesa para desposar o não menos jovem Luis XVI. O argumento do filme é esse olhar feminino, estrangeiro e ainda infantil, nos mostrando os bastidores da maior e mais rebuscada corte da europa. Há uma sensibilidade muito grande da diretora em mostrar a doutrinação do corpo pela etiqueta e pelos rituais, na constituição da identidade absolutamente pública do nobre. A ausência de privacidade, os maneirismos velados, a dissociação entre o amor romântico e as obrigações do casamento e o propósito único de gerar um herdeiro são aspectos que geram no espectador contemporâneo um certo incômodo. Porém, o que poderia ser um ótimo drama ganha ares de leveza com um outro lado da história: a curtição adolescente que a corte proporciona a Maria Antonieta e sua galera. Sim, porque é exatamente disso que se trata: Sofia Coppola consegue criar um espaço para a adolescência nesses parcos magros anos entre a chegada de Antonieta à França, sua coroação como rainha e a queda da monarquia com a revolução francesa. Antonieta vive a liberdade, a extravagância e a descoberta da condição adulta como uma adolescente. Suas amizades e amores, seus interesses fúteis e as festas da corte marcam boa parte da trajetória do filme. Mas a pergunta é: será que foi assim?

Como disse, a graça do filme é justamente brincar com essa ambigüidade, o que mostra que é um caso de ilusão retrospectiva premeditada. Nada mais interessante do que ver uma dança de minueto embalada por Hong Kong Garden, de Siouxsiee and the Banshees ou ter a coroação marcada por uma música do The Cure. A cena mais ilustrativa é, no entanto, bastante sutil. Trata-se de uma seqüência rápida de troca de sapatos em que aparece nada mais nada menos do que um tênis All Star surrado no meio daqueles bibelôs do século XVIII. Sim, um toque de ousadia que diz tudo: trata-se de um filme de época ou de uma festa à fantasia?!? Seria isso um clipe do Smashing Pumpkins, ou, para fazer jus a aborrescência atual, uma baladinha "emo"?

Penso que os adolescentes de hoje vão se surpreender com esse filme e encontrar ali alguns elementos muito fortes de identificação. Quem sabe surge aí um sucesso inesperado? De qualquer forma, foi uma ótimo resgate da minha própria adolescência, que se deu na "década perdida" dos anos 80. Não precisa nem dizer que essa é, também, a geração de que faz parte Sofia Coppola,  curiosamente uma jovem que teve de muito cedo abdicar de sua condição adolescente para assumir o legado cinematográfico diante do pai todo-poderoso da academia. É, a adolescência pode até não fazer parte da história desse filme, mas a vida de fantasia de sua diretora está aí com todas as letras. Isso sim, é sublimação de primeira!

 


Escrito por Dr. Silvério às 15h16
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21/11/2007

Analista de Bagé

TIRAS DO ANALISTA DE BAGÉ

O analista de Bagé, como vocês sabem, é um dos ideais de ego do Dr. Silvério. Segue uma tirinha do novo livro, "As melhores do analista de Bagé", editado pela objetiva. Quem quiser conferir um pouco mais, vai encontrar algumas das tiras para download no site da Objetiva: http://www.objetiva.com.br/objetiva/cs/?q=node/1424


Escrito por Dr. Silvério às 18h53
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Portal Literal

http://portalliteral.terra.com.br/

Classificação:

Para quem gosta de boa literatura, o portal literal é referência obrigatória. Destaque para os sites pessoais de autores como Rubem Fonseca, Luis Fernando Veríssimo e Ligia Fagundes Teles, com extenso material bibliográfico.


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Escrito por Dr. Silvério às 18h36
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13/11/2007

Pérolas II

RESERVAS DE MERCADO

Todos sabem que a Psicanálise já não é mais um clube restrito aos que fazem formação nas sociedades "oficiais" do movimento psicanalítico. Aqui no Brasil a libertação veio especialmente com o movimento lacaniano na década de 80. Mas atualmente não são só as Sociedades e Escolas que contam com grupos de formação. Além de institutos específicos, como o Sedes Sapientiae, em São Paulo, e o CPCAMP, de Campinas, temos também uma série de cursos de especialização em clínica psicanalítica nas universidades. Ou seja, a diversificação institucional da psicanálise no Brasil veio para ficar.

O problema é quando o salutar debate teórico-conceitual e clínico cede lugar à concorrência mercadológica desenfreada, às custas do rigor e qualidade da formação. Nesse sentido, tem dois movimentos que me parecem bastante discutíveis. Um deles é mais antigo e até relativamente conhecido, o da chamada Psicanálise Ortodoxa (www.spob.com.br)  Fundada em 1994 em Niterói os cursos dessa sociedade já formam turmas em vários lugares do Brasil (muitas, inclusive, no interior de São Paulo). O que chama a atenção, nesse caso é o processo de formação, auto intitulado de "processo dinâmico" (ou seja, nisso ela não é nada "ortodoxa"): o curso é de 24 meses com aulas uma vez por mês, durante um final de semana (14 horas-aula). Ou seja, a carga horária total é de 336 horas, muito inferior a qualquer curso de especialização. Além disso, há uma série de controvérsias sobre a leitura da psicanálise que é feita nessa "escola", já que não se referenda em nenhuma das tradições da psicanálise.

Não quero entrar no mérito se ela é representativa ou não do legado freudiano ou do movimento psicanalítico, embora tenda a achar que não. Já ouvi muitas estórias sobre esse grupo, mas não posso confirmá-las. Há boatos de que sua "ortodoxia" vem da atenção dos detalhes no setting, de que são um grupo de psicanalistas evangélicos, de que não exigem análise didática e de que querem regulamentar a profissão de psicanalista. Não tenho confirmação de nenhuma dessas informações, a não ser a defesa da regulamentação da profissão com base na classificação de ocupações do ministério do trabalho e de um certo discurso de legitimação científica da psicanálise por meio das Neurociências (isso está no site!).

O que acho mais complicado é o expediente mercadológico de tomar para si o próprio campo! É verdade, muitos dos projetos de "regulamentação" da profissão de psicanalista estão sustentados por políticos ligados a esse tipo de movimento. É o caso, também, do Sindicato de Psicanalistas do Estado de São Paulo (www.sinpesp.com.br) - tem também do RS! Embora seja, supostamente, uma tentativa de proteção dos "psicanalistas" contra as tentativas de regulamentação da profissão, eles defendem a causa com as "armas" do inimigo, querendo encampar para si a necessidade de regulamentação. Sim, está escrito com todas as letras na página inicial: regulamentação e defesa" da prática da psicanálise. Também encontramos o apoio na classificação das ocupações do Ministério do Trabalho. Ou seja, novamente um expediente político e mercadológico de apropriação indébita do saber psicanalítico.

É nesse sentido que caminha a formação psicanalítica no Brasil, uma pulverização e concorrência crescentes que tenderão a disseminar ainda mais as facetas do "movimento". Isso é, em parte positivo, uma vez que proporciona o diálogo e o crescimento, mas também é bastante preocupante no sentido das garantias de uma boa formação. Acredito que não tenha outro meio de se garantir isso senão pelo rigor e consistência do trabalho de formação, não na canetada ou na propaganda. Mas penso que talvez isso não seja suficiente, ainda mais quando se começa a discutir mais seriamente a regulamentação da práticas psicoterápicas no Brasil. Enfim, vamos ver no que isso dá!


Escrito por Dr. Silvério às 12h47
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07/11/2007

Freud Continua POP

Freud e seu Duplo

Esse é um dos selos mais legais dos que já achei sobre Freud. Este é do Uruguai, em comemoração ao centenário da Psicanálise. Será que tem da Argentina?

 


Escrito por Dr. Silvério às 13h11
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BRASIL, Sudeste, Homem, de 26 a 35 anos, German, Portuguese, Arte e cultura, Tabacaria, Psicanálise Selvagem







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